VIDAS DE SANTOS: “Fiel até a morte: O beato John Felton, mártir”

 

O santo que conheceremos hoje — e não me refiro a São Domingos de Gusmão — nos leva a Inglaterra em uma época de grandes tensões políticas. Sob o reinado de Henrique VIII começou um período particularmente difícil para os católicos que queriam permanecer fiéis a sua fé.

Henrique VIII havia assumido o trono de seu pai em 1509, aos 17 anos de idade. Inicialmente, seus súditos estavam entusiasmados, pois o jovem rei parecia destacar-se positivamente em comparação com o pai. No entanto, com o passar dos anos, ele foi instaurando um regime opressivo. Em seguida, deu-se a fatídica ruptura com a Igreja Católica. O rei queria separar-se de sua esposa, Catarina de Aragão — que não lhe dera um herdeiro para o trono —, e anular o casamento para se unir a outra mulher. No entanto, o papa não deu seu consentimento a tal pretensão. Sua paixão por aquela mulher, Ana Bolena, era tão grande que ele optou pelo rompimento com Roma. Em 1543, Henrique e Ana Bolena foram excomungados pelo Papa. Naquele mesmo ano, Henrique autoproclamou-se “chefe supremo na Terra da Igreja da Inglaterra”. Assim nasceu o anglicanismo.

Para nós, como católicos, é lamentável constatar que quase todos os bispos da Inglaterra — salvo raras exceções — seguiram o rei nesta ruptura com Roma.

Assim surgiu um regime de terror cada vez mais intenso, que infligiu um profundo sofrimento. A Inglaterra católica viu-se obrigada a esconder-se e estava exposta a uma ameaça constante. Em 1547, o rei Henrique VIII faleceu sem ter se reconciliado com a Igreja.

Em 1558, quando Isabel I —a filha nascida da união entre Henrique VIII e Ana Bolena— assumiu o poder e impulsionou cada vez mais a reforma religiosa, interferindo de forma violenta nos direitos da Igreja, o Papa viu-se obrigado a intervir. Quando chegou a Roma a notícia do massacre que Isabel havia ordenado perpetrar contra católicos inocentes no norte da Inglaterra, o Papa publicou, em 1570, a bula na qual se decretava a excomunhão e a destituição da rainha.

Embora a Inglaterra estivesse rigorosamente isolada de qualquer contato com o mundo católico, a bula conseguiu chegar lá. Na madrugada de 25 de maio de 1570, os habitantes de Londres a encontraram afixada na porta do palácio episcopal. Após uma investigação exaustiva, encontrou-se um exemplar da bula em poder de um estudante de Direito, cujos membros haviam preservado o antigo espírito católico por muito tempo. Sob tortura, um dos estudantes confessou tê-la recebido de um certo mestre John Felton.

Aquele John Felton, um distinto nobre de Southwark, era um fervoroso defensor da fé de seus antepassados. Considerava seu dever dar a conhecer a bula aos seus compatriotas, cumprindo assim a vontade do Papa. A prisão que sofreu imediatamente não lhe fez perder a calma nem por um instante. Mobilizara-se todo um exército contra uma única pessoa. O prefeito, o presidente do Tribunal Superior e os dois xerifes de Londres, acompanhados por quinhentos alabardeiros, cercaram a casa de Felton. Assim que viu seus perseguidores pela janela, ele desceu, abriu a porta, deu-lhes as boas-vindas e deixou claro que intuía perfeitamente por que haviam ido até ali. Felton confessou imediatamente e sem rodeios que, durante a noite, havia afixado a bula papal na porta do palácio episcopal, que na época já era anglicano.

O processo judicial contra o beato John Felton foi muito simples. Ele havia assinado todos e cada um dos pontos contidos na bula papal e declarado que «a Isabel não cabem o título, a honra nem a coroa de uma rainha, e que ela não deveria, de forma alguma, ser rainha da Inglaterra». Não se poderia esperar uma confissão mais clara; no entanto, quando lhe perguntaram se, consequentemente, se declarava culpado de alta traição, Felton respondeu logicamente que era inocente, visto que já não reconhecia como sua rainha Isabel, a quem o Papa havia deposto. Nem mesmo as repetidas torturas conseguiram fazê-lo delatar seus cúmplices. A sentença não deixava margem para dúvidas: arrastamento, enforcamento, a habitual mutilação bárbara e o esquartejamento.

Na manhã de 8 de agosto, dia em que a sentença deveria ser executada, três pregadores anglicanos foram à prisão visitar Felton, com a intenção de fazê-lo vacilar em sua fé por meio de seu poder de persuasão. No entanto, o beato rejeitou com firmeza — ou, como diz o relatório do governo, “com grande arrogância” — todas as tentativas de convertê-lo. A todas as artimanhas, respondeu com determinação que sabia o que havia feito e que se apegava à antiga fé católica que o Santo Padre, o Papa, defendia há muito tempo. «Quem adotar outra fé ou sustentar outra doutrina, saiba que ela é má e errada.»

 

De joelhos, recitou o salmo do «Miserere» após a promulgação da sentença real. Em seguida, subiu a escada. Ao contemplar a porta onde havia afixado a bula de Pio V — o local da execução era o cemitério adjacente —, disse: «Sim, ali esteve afixada a sentença do Papa contra a suposta rainha; e agora estou disposto a morrer pela fé católica».

Encontramo-nos hoje com um beato que soube defender com firmeza a fé católica em tempos de perseguição. Isso é, de fato, o que observamos frequentemente nos mártires ao longo da história. A fé é mais importante do que a vida. A verdade prevalece sobre a mentira e o engano.

Que situação triste se viveu então na Inglaterra, quando um rei se impôs como chefe da Igreja e a maioria dos bispos não ofereceu resistência!

No entanto, os santos não são apenas nossos modelos a seguir. São nossos irmãos e irmãs no céu que já alcançaram a perfeição. Por isso, nestes tempos de crescente confusão, rogamos ao Beato John Felton que interceda para que possamos permanecer fiéis à fé católica, ainda que isso nos custe a vida!

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