Que flores maravilhosas crescem no jardim de Deus! Nunca nos cansamos de admirá-las quando as vemos como as vidas dos santos que nos foram legadas. De fato, a Igreja é abençoada com uma imensa riqueza de santos; a história da vida e da morte de cada um deles, nos fala do amor de Deus por aqueles Seus filhos que escolheram seguir os Seus caminhos. Contudo, nem todos o fizeram desde o início.
Assim aconteceu com São João Gualberto.
Ele nasceu em Florença, no ano de 985, em uma família nobre. Desde a juventude, estava destinado à carreira militar. Seu pai, um guerreiro, instruiu o jovem de espírito vivo nas belas-artes e incutiu nele o senso de dignidade e honra próprios de um guerreiro. No entanto, não há qualquer menção a uma educação religiosa ou voltada para as virtudes cristãs.
João Gualberto era rico, pertencia a uma linhagem ilustre e desfrutava de sua posição. Portanto, nada parecia indicar que ele viria a se tornar um homem profundamente religioso.
No entanto, o Senhor sabia como alcançar o coração dele. Embora fosse uma situação dolorosa, Deus a usou para realizar os Seus planos para ele.
Acontece que seu único irmão, Hugo, foi assassinado. Seu pai jurou vingança e, ao que parece, encarregou seu filho João de matar o assassino.
O que aconteceu então chegou até nós neste relato:
Foi precisamente na Sexta-Feira Santa que o jovem nobre Gualberto encontrou o assassino de seu amado irmão Hugo em uma estrada estreita e cercada, perto de Florença. Ele o procurava há algum tempo e havia jurado vingança de sangue contra ele, conforme o costume da época. Dominado pela fúria, desembainhou a espada contra o homem indefeso. Este então, percebendo que não podia fugir, ajoelhou-se, cruzou os braços sobre o peito e suplicou: «Pelo amor de Jesus, que hoje, na cruz, perdoou os seus algozes, tende misericórdia de mim; se sou um assassino, não queiráis vós também tornar-se um; se, no turbilhão da paixão, derramei sangue inocente, então vós, com serena sabedoria, absolvei o culpado e perdoai o penitente.»
A comoção causada por tal súplica foi tão grande que Gualberto sentiu-se paralisado. Após um momento de luta interior, ele deixou cair a espada, estendeu a mão direita ao assassino, que permanecia ajoelhado diante dele, e exclamou: «Não posso negar o que me pedes em nome de Jesus e Sexta-Feira Santa. Que Deus perdoe também os meus pecados!» Então, ele o abraçou, beijou e saiu rapidamente.
Dominado pela emoção, João Gualberto chegou ao mosteiro de San Miniato e mandou seu companheiro voltar para casa com os cavalos. Entrou na igreja e ajoelhou-se diante da imagem do Crucificado para rezar. Ao levantar os olhos marejados de lágrimas para a imagem sagrada, o Senhor Crucificado, cheio de bondade e misericórdia, pareceu inclinar a cabeça e dizer-lhe amavelmente: «Pois que tu o perdoaste, também eu o perdôo».
Aquele foi o grande ponto de virada em sua vida. A partir de então, ele não podia mais voltar à sua vida anterior; por isso, implorou ao abade que o acolhesse no mosteiro. Embora o abade tenha hesitado a princípio, acabou permitindo que ele participasse da liturgia noturna vestindo roupas seculares.
Quando seu pai soube do ocorrido, invadiu o mosteiro furioso e, proferindo ameaças terríveis, exigiu a devolução do filho. O abade relatou calmamente os acontecimentos, mostrou-se pronto para enfrentar o que quer que viesse e conduziu-o até o filho. Enquanto isso, o jovem ficara sabendo da chegada do pai; cortara rapidamente as longas madeixas, vestira um velho hábito monástico, refugiara-se na igreja e, ajoelhado diante do altar, aguardava aqueles que o procuravam. Quando o pai o viu, trajando o hábito e ajoelhado diante do altar, lágrimas vieram-lhe aos olhos. Incapaz de proferir uma palavra, lutou para conter a emoção, aproximou-se dele, estendeu a mão e… abençoou-o, para que ele pudesse dedicar-se a Deus!
Ao milagre da conversão do nosso santo seguiu-se o milagre de seu pai abandonar a ira e permitir que ele entrasse no mosteiro.
Aqui vemos a maravilhosa intervenção de Deus na vida de uma pessoa para atraí-la a Si. Quem vivencia tal conversão frequentemente se torna fervoroso de modo particular, como também vemos no caso de São Paulo.
O restante da vida de João Gualberto foi marcado pela observância zelosa da disciplina monástica, à qual ele se submeteu com um profundo espírito de penitência. Quando, após a morte do abade, um abade indigno assumiu a liderança do mosteiro, João Gualberto retirou-se e dirigiu-se a Camaldoli, onde São Romualdo se encontrava. Ele o aconselhou a instalar-se na isolada Vallombrosa, “o vale da sombra”, onde encontraria dois eremitas exemplares. E assim aconteceu: esses homens viviam com tamanha perfeição que vários clérigos e leigos se juntaram a eles, tornando necessária a construção de um mosteiro. Para esse fim, a abadessa de San Hilario doou-lhes prados, vinhedos e bosques. Concluída a construção, escolheram Gualberto como abade, apesar de sua resistência, e comprometeram-se a observar a Regra de São Bento com todo o seu rigor original.
A fama da vida santa levada pelos monges de Vallombrosa, cuja ordem recebera reconhecimento eclesiástico do Papa Alexandre II em 1070, atraiu numerosos bispos e príncipes: os primeiros buscavam ajuda para revitalizar mosteiros em declínio, em conformidade com seus princípios religiosos, enquanto os últimos ofereciam recursos para a fundação de novos mosteiros.
O zelo de Gualberto pela glória de Deus e pela salvação das almas não conhecia descanso. Em pouco tempo, surgiram doze novos mosteiros, e outros já existentes adotaram as reformas e aderiram à congregação que, sob o pontificado do Papa Inocêncio III, já contava com mais de sessenta mosteiros. Até o século XVII, esta congregação contribuiu para a Igreja com doze cardeais, cerca de quarenta bispos e mais de cem escritores, além de vários santos e beatos.
João Gualberto fundou não apenas mosteiros, mas também hospitais. Mesmo como abade, manteve-se muito simples e viveu uma vida de pobreza voluntária de maneira convincente até a sua morte. As pessoas costumavam dizer: «Se alguém quiser saber quem é o Abade de Vallombrosa, basta procurar o monge que é o mais humilde, paciente e piedoso de todos».
João Gualberto faleceu em 12 de julho de 1073, aos 88 anos. Chegava ao fim uma vida fecunda, e só se pode louvar a Deus por tudo o que pode advir da conversão de uma única pessoa.
O Papa Celestino III canonizou-o em 1193.
(Fonte: Otto Bitschnau OSB, La vida de los santos de Dios, 1881, págs. 523-525)
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