Como anunciei ao final da última meditação, gostaria de incluir em nosso itinerário quaresmal uma pequena série sobre a transformação do coração. Por um lado, é um tema que emerge repetidamente dos textos bíblicos da Quaresma, que descrevem como o coração humano se afasta de Deus e apontam claramente os abismos que nele existem. Por outro lado, também é oportuno aprofundar este tema diante das guerras que estão ocorrendo no mundo e que, infelizmente, voltam a afetar a população do Oriente Médio. A guerra que acaba de eclodir afeta de maneira muito significativa Israel, aquela terra na qual Jesus consumou a obra da Redenção.
No âmbito do nosso «retiro de Quaresma», não considero que seja minha tarefa explicar em detalhes os antecedentes políticos, sociais e religiosos do conflito entre Israel e Irã. Antes, move-me a pergunta sobre o que podemos fazer nós, como discípulos do Senhor, para contribuir para a verdadeira paz que vem de Deus.
Sem ignorar os múltiplos problemas que podem desaguar em guerras, devemos ter claro que toda a discórdia na Terra tem um ponto de partida em comum: surge porque muitas pessoas não obedecem aos mandamentos de Deus, não creem em seu Filho como seu Salvador nem vivem segundo os seus ensinamentos.
Deus não criou o ser humano para que fizesse a guerra e pleiteasse com os demais, mas para que vivesse em paz consigo mesmo e com os outros em uma comunhão de amor. Isso seria o Reino de Deus na Terra! Como discípulos de nosso Senhor, cabe-nos a urgente tarefa de trabalhar na expansão do Reino de Deus na Terra, tal como rezamos no Pai-Nosso: «Venha a nós o vosso Reino».
O que podemos fazer nós, os fiéis, a respeito?
- Anunciar autenticamente o Evangelho, porque não haverá verdadeira paz no mundo enquanto os homens não se converterem a Deus.
- Implorar a Deus com grande fé a verdadeira paz.
- Aprofundar nossa própria conversão, a conversão do nosso coração.
Este último ponto será o nosso tema durante os próximos dias. Para desenvolvê-lo, recorrerei em parte a meditações que publiquei anteriormente.
“Pois é de dentro, do coração dos homens, que saem os maus pensamentos, as fornicações, os roubos, os homicídios, os adultérios, as ambições desmedidas, as maldades, a fraude, a desonestidade, a inveja, a blasfêmia, a soberba e a insensatez. Todas estas perversidades saem de dentro e contaminam o homem” (Mc 7,21-23).
Para qualquer avanço espiritual, será indispensável a interiorização desta passagem evangélica. Por mais práticas e sacrifícios que nos imponhamos, por mais regras que sigamos, por mais obras apostólicas importantes que realizemos; se não trabalharmos em nosso coração, dificilmente crescerá em nós o amor de Deus. Aqui podem ser aplicadas muito bem as conhecidas palavras de São Paulo: Se não tivéssemos amor, tudo seria como o bronze que ressoa (cf. 1Cor 13,1). Com efeito, a purificação do nosso coração significa crescer no amor.
A interiorização deste texto consiste, em primeiro lugar, em tomar consciência de que em nosso coração realmente habita aquela maldade de que aqui fala o Senhor. Esta consciência deveria tornar-nos vigilantes e libertar-nos de toda ilusão a respeito de nós mesmos. Em um primeiro momento, pode ser que nos doa descobrir tudo isto em nosso interior. No entanto, se o Senhor nos faz ver isso com tanta clareza, é porque para Ele é muito importante que não sejamos cegos nem ignoremos os nossos próprios abismos: “Ouvi-me todos e entendei” – diz o Senhor.
Este saudável realismo de reconhecer-nos como pessoas inclinadas ao mal, tal como nos ensina a doutrina católica (Catecismo, n. 402-403), não deve levar-nos nem ao fatalismo nem à resignação. Pelo contrário, evita que caiamos em ilusões a respeito de nós mesmos e que surja uma espécie de “santidade autoproduzida”.
Em vez disso, o verdadeiro conhecimento de nós mesmos é um chamado a recorrer Àquele que pode dar-nos um coração novo (cf. Ez 36,26). Com a vossa ajuda, poderemos cooperar para que a graça de Deus nos converta em homens modelados à vossa imagem.
Tomemos a primeira das maldades que Jesus menciona no evangelho de hoje: os maus pensamentos. E a estes poderíamos acrescentar também os sentimentos correspondentes.
Como podemos vencer os maus pensamentos?
Em primeira instância, é necessário identificar os maus pensamentos como tais. Para uma pessoa que segue o Senhor, isto não deveria ser tão difícil. Também aqui o Evangelho é uma luz forte na qual podemos reconhecer o que acontece em nosso interior; assim como também o é a presença do Espírito Santo em nós, que nos recorda as Palavras do Senhor (cf. Jo 14,26) e se torna nosso mestre no processo de purificação do coração.
No entanto, já na primeira etapa pode surgir um grande obstáculo, que não nos permite empreender realmente este caminho. É a soberba, que não quer admitir que temos maus pensamentos e pode até justificá-los. Sobretudo do ponto de vista espiritual, isto se torna um grave problema, que cega progressivamente a pessoa. A soberba planta-se à entrada do coração como um guarda inflexível, que sequer permite o conhecimento de si mesmo.
Por hoje fiquemos com o seguinte: Um primeiro passo essencial para obter um coração puro é estar dispostos a perceber sem medos nem repressões a nossa própria sombra; ou seja, reconhecer e admitir o mal que vem de dentro. Sempre devemos ter presente que isto acontece na presença de um Pai amoroso, que quer tirar-nos das trevas e conduzir-nos à sua luz (cf. 1Pe 2,9).
Amanhã retomaremos o tema.
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Meditação da leitura do dia: https://es.elijamission.net/dios-ama-la-misericordia/
Meditação do evangelho do dia: https://es.elijamission.net/el-amor-de-un-padre/
