Sofrer por causa do Senhor

1Pe 2,20-b25 

Se é por ter feito o bem que sois maltratados, e se o suportardes pacientemente, isso é coisa agradável aos olhos de Deus. Ora, é para isso que fostes­ chamados. Também Cristo pa­deceu por vós, deixando-vos exemplo para que sigais os seus passos. Ele não cometeu pecado, nem se achou falsidade em sua boca (Is 53,9).

Ele, ultrajado, não retribuía com idêntico ultraje; ele, maltratado, não proferia ameaças, mas entregava-se àquele que julga com justiça. Carregou os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro para que, mortos aos nossos pecados, vivamos para a justiça. Por fim, por suas chagas fomos curados (Is 53,5). Porque éreis como ovelhas desgarradas, mas agora retornastes ao Pastor e guarda das vossas almas.  

 

Nessa passagem bíblica São Pedro exalta particularmente o sofrimento, que é um assunto difícil para a humanidade compreender. 

De fato, o sofrimento também pode ser a consequência de pecados e erros, que servirá como medida pedagógica para nos levar de volta ao caminho certo. Mas a leitura de hoje não se refere a esse tipo de sofrimento. Em vez disso, dirige-se àqueles que sofrem apesar de terem feito o que é certo e cumprido a vontade de Deus. Se permanecem no caminho reto, mesmo que sejam atingidos pelo sofrimento, a sua dor se une diretamente à de Cristo. 

Estas palavras de São Pedro nos recordam uma das bem-aventuranças: “Bem-aventurados sereis quando vos injuriarem, perseguirem e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós por minha causa” (Mt 5,11). 

O texto diz inclusive que esse sofrimento seria uma “graça diante de Deus”. Ora, a graça é uma manifestação do amor de Deus; como então podemos entender que um sofrimento, seja ele qual for, é uma graça, se sempre o experimentamos como sendo uma restrição na nossa vida? 

Essa definição só pode ser compreendida se a dimensão expiatória e redentora da Paixão de Cristo for mantida em mente. É exatamente isso que São Pedro descreve a seguir, lembrando-nos o que o Senhor sofreu por nós. 

À imitação Dele, o sofrimento suportado se transforma em sofrimento redentor. Compartilhamos do sofrimento de Cristo – ainda mais: nos unimos a ele. Deus transforma o peso e o fardo do sofrimento em nosso interior e o retribuirá a nós como mérito. 

A perseverança em meio ao sofrimento é um sinal especial do nosso amor a Cristo, pois é justamente nessas circunstâncias que somos tentados a fugir da dor e a esquecer o Senhor. Imagine, por exemplo, a situação de ser perseguido por Sua causa, com o medo da morte que isso implica. Nem todos são capazes de permanecer firmes, pois isso requer o dom da fortaleza, que sempre podemos pedir. 

Como, então, podemos adquirir essa firmeza, para que também possamos cooperar com a graça de Deus? 

Em primeiro lugar, devemos orar sempre, preparando-nos para os momentos de tribulação: “Senhor, fortalece-nos quando tivermos que sofrer, para que permaneçamos firmes”. Essa oração corresponde à prudência e ao realismo cristãos, pois nunca podemos nos sentir demasiado seguros em nós mesmos. A experiência de São Pedro, que negou o Senhor três vezes, deve nos servir de advertência para não confiarmos em nossas próprias forças e emoções. 

Então, quando a tribulação vier sobre nós, não devemos nos fixar demais no sofrimento, esmiuçando-o em todas as suas dimensões, exagerando-o ou mencionando-o demais aos outros. Devemos tomar cuidado para não cair na auto piedade e na vitimização que muitas vezes surgem nessas situações, e não buscar um falso consolo em outras pessoas. 

É importante aceitar conscientemente o sofrimento das mãos do Senhor e uni-lo ao Seu sofrimento por meio de uma oração simples como esta: “Senhor, aceito este sofrimento de Suas mãos. Dê-me forças e faça com que ele dê frutos”. Quando as tentações chegarem e nos afundarem no sofrimento, é importante elevarmos o coração em oração incessantemente a Deus e invocar o Seu nome. Também podemos simplesmente levar a nossa dor diante Dele em silêncio. Nesses momentos nos tornamos mais fortes! 

O quanto mais aceitarmos o sofrimento conscientemente e o suportarmos no Senhor, mais facilmente ele poderá se tornar num pequeno tesouro escondido, num relacionamento de intimidade com Deus, pois ninguém mais do que Ele pode compreender a nossa dor completamente. 

Com o passar do tempo, pode até acontecer que nos sintamos chamados a carregar o sofrimento que o Senhor nos confia como sendo um sinal de seu amor, incluindo-nos, assim, em Seu plano de salvação e fazendo-nos crescer no amor. Entenderemos que Ele está nos dando uma oportunidade de demonstrar-lhe nosso amor. Desta forma, podemos até chegar ao ponto de agradecer-lhe por ter nos considerado dignos de suportar um sofrimento por Sua causa. 

Se seguirmos esse caminho com a ajuda de Deus, a graça da qual fala o apóstolo Pedro poderá se fazer eficaz. 

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